Clubinho

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Vilma chegou no clubinho e recebeu um olá de todos. Sentou-se ao lado do Laércio. As conversas de hoje iriam começar.

Todos os dias, a garotada ia brincar de ser adulto na casa abandonada da rua de trás. Fundaram um clube, um clubinho, para conversarem, jogarem e plantarem qualquer coisa no quintal desarrumado daquela casa, há tanto tempo abandonada.

Mas naquele dia em especial, nada disso seria feito. Iriam eleger o líder. A criança que seria eleita para comandar os outros sete. Eleição que não teria porque acontecer, já que tudo ocorria as mil maravilhas. Mas ontem o Lucas brigou com a Helen por causa de uma florzinha que brotou no chão quebrado da casa. Então uma liderança era necessária. Urgente.

Os dois que se candidataram foram Vilma e Laércio. Na verdade, outros se candidataram, mas como não eram populares, foram esquecidos rapidamente.

No meio da conversa, Vilma disse que, se eleita líder do clubinho, deixaria as flores e os feijões plantados, para todo mundo. Qualquer um poderia pegar a hora que quisesse.

Já Laércio não concordava com isso. Para ele, as flores e os feijões deveriam ir para quem merecesse ganhar. Merecimento esse que ele mal sabia explicar como funcionaria.

Os outros candidatos, que tinham ideias diferentes, tiveram cinco segundos para falar, mas nenhum conseguiu terminar o próprio nome a tempo. Em suma, todos ficaram quietinhos ouvindo. Não tinham como competir com os dois mais populares da rua. Laércio filho de pais ricos, sempre bem vestido e educado. Vilma sempre amigável e defensora de todos.

Renatinho, um dos que não havia dito nada, se levantou e começou a falar o que faria se fosse o líder. Mas logo foi silenciado por todos, por estar se metendo onde não se deve. Ou ele pensava de um jeito, ou de outro. Que absurdo Renatinho! Ter uma terceira ideia! Que absurdo!

Em pouco tempo de conversa, as oito crianças se dividiram em dois grupos. Três ao lado de Vilma e três ao lado do Laércio. E não tardou para as brigas começarem. Insultos, palavras feias e fim de amizades. O clubinho estava rachado. Vilma e Laércio não deram o braço a torcer. Levaram seus eleitores para o próprio quintal de suas respectivas casas.

No quintal da casa da Vilma, eles traçavam planos infalíveis para derrubar Laércio e amigos. Já no quintal de Laércio, faziam exatamente o mesmo. Planos e mais planos para derrubarem Vilma e sua trupe.

Renatinho, que estava na casa de Vilma, tentou levantar o fato de que, com toda essa discussão, o clubinho já não existia mais. Então, não teria sentido brigar. Mas foi silenciado pelo restante e tratado como idiota.

Ninguém na verdade, sabia que Vilma e Laércio se encontravam no clubinho secretamente, depois da dissolução do clube, para colher as flores e plantar feijões. Só os dois. Ambos riam e se divertiam, com tudo somente para eles. Mas voltavam a fingir a briga, na frente dos outros, para manter a aparência e o clubinho só pra eles.

As crianças nunca mais se reuniram. Nem na adolescência, nem na vida adulta. Separados em dois grupos, sem conversa, sem amizades, sem feijões e nem flores.

É.

A nossa grande sorte, é que esse tipo de coisa sem nexo só acontece com as crianças.

 

Papo Furado

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– Opa!

– Opa!

– Trânsito hoje, não?

– É. Complicado.

– E esse tempo hein?

– Calor né?

– É.

– Como vai a família?

– Bem. E a sua?

– Também.

– Mengão ontem hein? Três a zero.

– Legal.

– Viu a última da playboy?

– Não.

– É, eu também não.

– E esse Lula hein?

– Aécio também.

– Tudo igual esses políticos.

– É.

– Trabalhando muito?

– Sim. E você?

– Também.

– O país tá uma merda.

– Sim.

– E esse calor hein?

– Muito.

– Dizem que amanhã vai esfriar.

– É.

– Devíamos nos ver mais.

– Verdade.

– Combinamos de sair então?

– Sim.

– Abraço.

– Abraço.

E nunca mais se viram.

Charles Darwin se vira ligeiramente em seu caixão. Fim.

A Terra é plana

planetas[1]

 

Você sabe que a palavra “Planeta” existe porque o nosso mundo é plano? Que se fosse realmente redondo, seria “redondeta” a palavra adotada?

Sim. Estamos sozinhos no universo. É o que diz a internet nos últimos tempos. E se a internet diz, quem é a NASA e o governo americano para desmentir?

NASA esta, que por sua vez, encobre a maior farsa da história da humanidade. Algo que me enganou toda a vida. Meus pais, avós e até o Sílvio. A ida a Lua é fichinha perto disso: A Terra é plana.

Pesquisadores da maior página do Facebook sobre o assunto, chegaram a conclusão de que, além de ser plano,  o planeta é cercado de gelo. Uma muralha gigante, que é o polo sul, nos impede de cair no infinito do inferno.

É claro! Estava na nossa cara todo o tempo! Segundo os que acreditam que a terra é redonda (chamaremos a partir de agora de “globais”), o planeta gira a mais de 1.500 quilômetros por hora, mas se jogarmos uma maçã para cima, ela não viaja pro outro lado do mundo. Ela cai no mesmo lugar. É óbvio!  Porque não estamos rodando! Estamos parados, num planeta achatado e cercado de gelo.

Os globais também dizem que acima de nós tem o universo. Sistemas solares, galáxias e trilhões de planetas. Mas nunca ninguém foi em nenhum desses planetas e trouxe um pouquinho de terra. Ninguém chegou num gigante gasoso e empacotou um pouco de gás. Mesmo com a eficácia que o governo Dilma teve em estocar o ar. Sei.

Mas a teoria da terra plana é muito mais consistente que isso. Vejam só: O planeta é fechado não somente dos lados. Mas acima de nossas cabeças também. Estamos numa espécie de domo com estrelas, lua e sol dentro dele. Acima desse domo, temos água e o paraíso. O domo, logicamente, é impenetrável, então ninguém nunca vai saber o que tem acima. Já jogaram umas biribinhas lá e, realmente, é indestrutível.

Já abaixo da Terra, temos o inferno. Mas não temos como chegar, devido a uma forte camada que nada consegue atravessar. Já que nunca ninguém conseguiu cavar um buraco na América e sair na Ásia, essa afirmação colabora ainda mais a favor dos Terracentristas. Os corretos. Os bonzinhos…

Tudo isso é muito claro. A NASA, o governo americano e a ONU vem nos iludindo há muitas décadas. Não há outros planetas. É tudo computação gráfica. Se existirem, também serão planos. Não tem a menos condição de um planeta ser redondo, se um avião anda em linha reta e não adentra o universo sem querer. Tem sentido.

Os globais afirmam que o sol tem a massa muito grande. Que ele tem a força gravitacional da minha tia Lucélia fora da dieta. E mesmo assim, o sol não consegue tirar a lua da nossa órbita. Por que será? Deve ser porque o sol é bem menor que a Terra e está dentro da nossa órbita, ué. Simples de entender. Até uma criança de cinco anos entenderia. Os astrofísicos da página no Facebook esclareceram isso diretamente para mim hoje.

Tsc, tsc. Essa Nasa é chata, hein?

É importante ressaltar também, que como não existem outros planetas, também não existem alienígenas. Todas as histórias de naves e seres de outros planetas foram plantadas pela NASA ou, na maioria das vezes, eram demônios do inferno brincando aqui na parte de cima. Plausível.

Se você, leitor, não acredita em mim e ainda quer continuar a ser manipulado pela NASA, governo americano, ONU e pela Globo (sim, a globo tem esse nome justamente para enganar mais ainda o povão), pode continuar a sua vida. Mas convido você a dar uma olhada em qualquer site de busca e se aprofundar no assunto. Mas não se aprofunde muito, porque ao contrário dos nossos amigos, sabemos que ali não tem o centro da Terra, e sim, o inferno.

A conclusão é simples: Como pode existir o nada, se o nada é nada? Então ele não existe. Se o nada não existe, então não podemos chamar o nada de nada. Logo, a Terra é plana.

Nicolau Copérnico e Galileu Galilei, dois fanfarrões associados à Globo. Willian Bonner sabe de tudo também. Ele que está liderando a página no Facebook. A nossa vida nunca mais será a mesma.

Planeta.

O começo

planetas

A vida no planeta ficou insuportável. Algo parecido com falta de água e crise de sede no país mais populoso.

As melhores mentes do mundo trabalharam em conjunto para achar a solução perfeita para salvar a raça humana e alguns animais fofinhos. Depois de alguns meses, a grande resolução foi anunciada:

Todos os habitantes iriam se dirigir para quatro planetas distintos, próximos um do outro. Um planeta para o povo de exatas, outro pra galera de humanas e o terceiro pro povo de biológicas. O quarto planeta seria para ladrões, assassinos e laranjas. A escória em geral.

E assim foi feito. Depois de alguns anos, todos estavam realocados em seus respectivos planetas. E assim que chegaram, cada parte foi decidindo o nome da nova casa.

O povo de biológicas acabou dando o nome do seu planeta de Vida. Já o povo de exatas, como era de se esperar, não pensou muito no caso e começou a chamar o próprio planeta de Novo Planeta. O povo de humanas não conseguiu se decidir e a décima votação sobre o nome acabou em pancadaria. O quarto planeta ficou sem nome, mas era chamado carinhosamente de Congresso por quase todos os outros.

Os primeiros meses, com recurso natural em abundância, foram satisfatórios para os três planetas. Mas com o passar do tempo, as coisas começaram a complicar.

No Vida não houve avanço na área urbana. Já que ninguém conseguia arrancar um pedacinho de mato do chão. Haviam leis que proibiam o maus-tratos às plantas, inclusive.

Já no planeta de exatas, o número de suicídios era altíssimo. Não havia alegria, nem criatividade. Era tudo tão cinza, quadrado e feio, que alguns habitantes tentavam fugir para outro planeta. Mas a lei para tal transgressão, no Novo Planeta, era ouvir uma poesia.

O planeta de humanas era o menos avançado de todos. Desde a chegada da nave contendo a população, a única coisa que fizeram foi sentar no chão e fumar tudo que achavam pela natureza do local. Algumas boas poesias e textos foram criados, mas logo esquecidas, depois de uma boa festa. A falta de leis não era um problema, já que não havia crime.

Com todos esses problemas, as cabeças pensantes resolveram juntar os três planetas e formar um só, novamente. Mas somente o planeta dos ladrões, o Congresso, era grande suficiente.

Depois de meses de negociações com os habitantes do Congresso, foi decidido que todos poderiam viver ali, mas obedecendo as ordens dos habitantes originais, os bandidos.

O Congresso criaria todas as leis e, teoricamente, mandaria na população dos outros três planetas, enquanto vivessem no território. Algumas falsas eleições, para iludir a galera, foram prometidas. Para manter a ordem, sabe como é.

Somente depois de muita discussão, conseguiram fazer com que o novo planeta tivesse um nome oficial. Nome dado aleatoriamente por um rapaz de humanas que bebia Caninha 51.

O nome do novo planeta seria: Terra.

 

Os três grandes magos

mago

Há muito tempo atrás, nos anos noventa, em uma terra árida, distante e sem computadores, habitavam três grandes e poderosos magos. Magos estes, que tinham poderes muito além de nossa compreensão.

Além de nossa capacidade humana, também eram seus nomes: Mago Falso, Mago Ilusionista e Mago Voador. Como os três tinham o mesmo primeiro nome, resolveram se chamar pela adjetivo / sobrenome. Assim era mais fácil.

O Mago falso tinha o poder de nunca contar uma verdade. Desde que nasceu, mentiu. Quando chorou no parto, estava feliz por dentro. Quando pedia o peito da mãe para se alimentar, estava farto. Quando foi bem na escola, na verdade matou todas as aulas. Quando andava, na verdade estava parado. Deu pra entender.

O Mago ilusionista tinha o poder de criar ilusões fortíssimas. Que enganavam a todos, sem exceção! Quando nasceu, na verdade já tinha dezessete anos e iludiu a mãe e o médico. Quando se formou na faculdade, já estava morto há milênios. Complicado.

O Mago voador, voava. Quando nasceu, chorou. Quando se formou na faculdade, ganhou um diploma. Etc~

Agora devidamente apresentados, podemos começar a contar o motivo pelo qual esse texto chega até você, leitor.

Era uma noite fria de domingo. Falso e Voador estavam na varanda, enquanto o Ilusionista fazia algo que não era exatamente o que estava fazendo. Complicado. Mas foi ouvido um distante barulho e, de dentro da casa, foi roubado o grande  amuleto secreto, dado pelo Mestre dos três.

Mago Falso ficou extremamente feliz e o mago Ilusionista comia batatas, criando uma ilusão para que ninguém o visse chorando. Mago voador comeu um bolinho. Mas mesmo assim concordaram que tinham que ir atrás do ladrão do amuleto. E rápido.

Saíram todos correndo pela floresta (sim, eles moravam no meio da floresta, como todos os magos fazem), menos o Falso, que estava parado e o voador, que voava. Mas dez minutos de caminhada depois, encontraram uma sombra parada no meio do caminho. E ela disse, em uma voz tenebrosa:

– Eu roubei o amuleto! Vocês terão que me matar para recuperar! Mwaha-ha.

O Mago Falso, prontamente, respondeu:

– Pode ficar com essa porcaria. Não quero.

Mas logo que ele proferiu tais palavras, o Ilusionista já criou uma ilusão das porretas, em que a sombra, na verdade, era atendente de telemarketing na Praça da Sé e, por incompetência, foi demitida.

O mago voador, voava por ali.

Muito fácil saber, que a sombra não aguentou trinta segundos daquela ilusão pavorosa. Desmaiou prontamente de asco de si mesmo e jogou o amuleto na mão do Falso. Que deixou cair com desdém. Mago Voador desceu do céu e pegou o artefato. Os três voltaram para aconchegante casa na floresta.

Chegaram felizes e satisfeitos, menos o Falso. Mas já estavam pra-lá-de-acostumados com o amigo, que nem ligavam mais para as mentiras. Se sentaram na sala de estar e começaram a conversar.

Voador: Foi uma noite agitada. Fazia tempo que eu não voava.

Ilusionista: Sim. Gostaria de ter mais noites como essa. Fazem falta.

Falso: Vocês fedem.

Ilusionista: Também te amo, Falso. Vamos dormir que amanhã é dia de treinar magia e se divertir.

No momento em que os três se levantam do sofá, uma fumaça começa a subir do chão, domina toda a casa e embranquece o ambiente. Quando ela se dissipa, Ilusionista está sozinho, em uma caverna fria e escura.

Ilusionista: Ah, voltei. É realmente difícil usar a ilusão por mais que trinta minutos…

E o querido mago, vai dormir, sozinho e sem amigos, dentro de uma caverna escura, usando a força da ilusão que restou para criar um travesseiro pequeno.

 

Uma simples consulta

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Josimar chega no hospital, espera algumas horas e finalmente é atendido. Seu nome é chamado e ele, pacientemente, se levanta e entra no consultório do médico.

A conversa se desenrola assim:

– Boa tarde – médico.

– Boa tarde – Josivaldo.

Nessa ordem.

– Senhor Josivaldo, o que você sente?

– Dores nas costas e dificuldade em andar. Tenho traumatismo craniano na coluna e leve desvio na sétima vértebra diagonal.

– Ah, entendo. O senhor já foi ao médico. Sou a segunda opinião.

– Não, não. Vi tudo isso na internet antes de vir para cá.

– Como? Na internet?

– Sim. Meu celular ainda não tá pago, mas consigo ver umas coisinhas. E aí? Que remédio eu tomo?

– Veja bem, Josivaldo, as coisas não são bem assim.

– São sim. Médico é tudo enganação. Ganham milhões pra falar o que a internet já sabe. Também procurei o nome do senhor no Facebook e vi que o senhor curte rock do demônio.

– Rock do demônio? Mas eu escuto rock nacional.

– Todo rock é do demo. Isso é conhecido. Como vou confiar em um médico que tem pacto com o tinhoso?

– Tudo bem seu Josivaldo. Deixe eu ao menos examinar o senhor. Pode se abaixar?

– Abaixar? Igual aquele vídeo em que você pede pro seu amigo se abaixar e chuta a bunda dele? Eu vi no seu instagram.

– Mas como o senhor achou todas essas coisas?

– Pesquisa de campo. Vi seu nome na porta da sala e procurei.

– Não vai se curvar para eu examinar sua coluna?

– Nem em mil anos. Sou estudado. Tenho acesso à internet. Não caio nessa. Não sei nem o motivo pelo qual estou aqui.

– E afinal, por que o senhor veio até aqui? Já que sabe tudo pela internet?

– Minha mulher me obrigou.

– Ela está  lá fora te esperando?

– Sim. Por que?

– Chame ela, por favor.

Depois de alguns segundos, a mulher entra na sala. Calma e dócil, senta na cadeira ao lado e pergunta ao médico:

– Algum problema doutor?

– Seu marido não quer se curvar para ser examinado.

– Josivaldo, tire a camisa e se curve pro doutor.

– Tudo bem, amor. – Josivaldo responde e se levanta para ser examinado.

Com um agradável sorriso, a mulher fala para o aliviado médico:

– Eu não sei quem ele é. Ele me chamou lá fora e eu vim. Nunca vi mais gordo.

Surpreso, o médico responde:

– Mas eu também não sou médico. Fui o primeiro paciente chamado, entrei e só tinha o jaleco. Sabe como é. A situação faz o médico.

Sem entender nada, Josivaldo também deu seus cinco centavos sobre o assunto:

– Não acredito. Me formei em medicina online, com louvor, pra passar por isso.

 

Invi Zíver – Olimpíadas

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Voltei. Sim, sou eu. Seu ninja particular. Minto. Não sou seu ninja. Nunca trabalhei para você. Tenho certeza. O número de clientes que tive nos últimos sessenta anos é menor que um. Sou bom em matemática. Mas não muito bom em negócios que envolvam números.

Sou Invi Zíver. Ninja profissional aposentado pelo INSS. Como o salário de aposentado é menor que dois menos dois, tive que voltar para o trabalho. Meu escritório na Praça da Sé só não está em pior estado que Adelaide, a faxineira que finge que limpa meu escritório. Ainda acho que ela só vem para ver minha desgraça. Assim como dez menos oito são três, ela tem mais de setecentos anos.

Certo dia eu estava contando as teclas do telefone. Tarefa difícil para um bom matemático. O grande problema é que eu não consegui terminar a contagem. O telefone foi roubado semana passada e eu esqueci quantas teclas tinha. Adelaide jura que nunca viu um telefone na minha mesa. Posso ter delirado e sonhado com um. Afinal, nunca ouvi ele tocar. Não como nada faz três meses. Mas meu apê em Itaquera continua em pé. Mais ou menos.

Na hora em que eu desisti de pensar no telefone, entrou alguma coisa no meu escritório. Chamar de coisa é pejorativo, mas no caso dela, esquece, não sei mais o que estou dizendo. Um metro e oitenta de altura, três metros de perna e uns cinquenta metros de quadril. Sei disso porque matemática métrica é minha especialidade. Ela entrou, sentou e me olhou nos olhos. Mentira. Eu delirei isso. Não tinha cadeira e meus olhos estavam olhando pra outra coisa no corpo dela. Na verdade ela entrou e ficou em pé, olhando pra mim. Disse:

– Você é o super ninja que anunciou os serviços na caixa de pizza dos Pimpollini?

– Se sou um super ninja eu não sei. Só sei que sou maior que zero – Eu disse, com o olhar matador que aprendi na primeira guerra.

Ela me olhou sem entender. Mas eu a acalmei e emprestei minha cadeira para ela sentar. Eu ficaria em pé. Assim eu poderia olhar ela diretamente onde eu queria. Na alma.

– O que eu posso fazer por você, boneca? – Disse com meu olhar número 53, que aprendi na marinha.

– Meu pai é o chefe da delegação olímpica brasileira e ele está ameaçado de morte pelos canadenses. Algo relacionado ao tamanho do bacon. Preciso que o proteja.

– Não diga mais nada. Passe amanhã aqui com o dinheiro que ele estará a salvo.

– Mas a olimpíada dura mais que isso – disse ela, desconhecendo minhas habilidades.

– Trinta dias e um dia são o mesmo número de dias. Dependendo da variável subjugada assindética. – respondi firmemente, quase fechando os olhos de inteligência.

Ela me olhou como eu mereço. Como um gênio. Depois acertamos o preço, ela se foi, impressionada. Mais tarde eu iria consultar na internet o que é que eu tinha falado. Mas como sou bom em matemática, devo ter acertado.

Saí em busca do pai dela. Segundo a filha, ele estaria escondido dentro do saguão destinado aos atletas do Afeganistão. Ele achava mais seguro ficar por ali. Não lhe culpo. Nem eu, um gênio, sei onde fica o Afeganistão. Os assassinos também não saberiam.

Aluguei um traje de ninja novo. Ao menos foi o que o vendedor falou. Custou menos de um real e veio com mais rasgos que tecido. Vou acreditar na boa vontade do rapaz. Pareceu ser de boa família. Não se acha mais pessoas dessas por essas bandas. Fui para o Rio de Janeiro.

Chegando no saguão do Afeganistão, demorei para encontrar o rapaz. Estava com roupa de Afeganês, ou Afegastão. Não sei. Estava disfarçado. Meu negócio são números. Tanto que rapidamente contei o número de pessoas ali. Eram por volta de uma e cem. Gênio. Eu disse.

O levei para se esconder na pista de atletismo. Ele estava assustado. Não dizia nada. Um calor infernal naquela cidade. Adelaide me ligou três vezes. Não atendi. Não tenho celular. Ela me ligou no orelhão do estádio, mas eu não atendi de orgulho. Dizendo que meu nome é Joaquim, e não Invi Zíver. Orgulho é meu segundo nome. Se não for Zíver. Algo assim.

Ele saiu correndo para a pista. Com certeza foi o medo. Era a prova de 1.500 metros. Logo já se via que o pai da garota era atleta. Corria junto dos outros, como se estivesse participando. Fui atrás. Sou forte, atlético. Sou campeão do triatlo para jovens católicos de Itaquera, 1922. Corri 4 metros. Desmaiei.

Quando acordei, estava em meu escritório. A cliente e o pai, preocupados, me olhando. Adelaide na porta, limpando a maçaneta, ou fingindo que limpava, para rir de mim. Ela consegue rir com os olhos. Incrível. Eles me explicaram tudo. O rapaz que estava comigo não era o pai da garota. Era um Afegão. Sim, descobri que o modo certo de falar é Afegão. Mas tive que deletar informação matemática da minha cabeça para caber isso. Agora não sei mais quanto é  dois mais três.

O pai dela estava em São Paulo. Tinha saído do Rio a pedido da filha, para se esconder em meu escritório. Mas como não tenho celular, não conseguiram me avisar. Adelaide tentou ligar nos orelhões. Mas ninguém achava o tal do Zíver. História triste. Não me pagaram. Não cheguei a fazer nada. Adelaide recebeu uma grana por ter cozinhado para os dois enquanto eu fiquei desmaiado. Desmaiei por três dias. A corrida foi muito para mim. Acho que meus dias dourados de ninja estão acabando. Quem sabe mais uns dez anos, pra parar no auge.

Lembrei quantas teclas tem o telefone. Gênio.